Canto VI: Os Exércitos Que Não Combatem
Os fiéis de ambos os deuses travam guerras de narrativas e memes enquanto os reis já haviam feito as pazes.
Mas se os reis haviam se acordado em silêncio, seus exércitos (oh, seus exércitos!) continuavam marchando uns contra os outros em batalhas de palavras e memes e gráficos de preço que nenhum deles compreendia completamente. Os maximalistas de Bitcoin, aqueles que usavam hashtags laranja e chamavam tudo que não fosse Bitcoin de altcoin lixo, marchavam com a certeza dos que acreditam possuir a única verdade num cosmos de múltiplas verdades.
Nos fóruns, nos comentários, nas transmissões ao vivo de YouTube onde mortais com câmeras tremendo debatiam sobre qual blockchain é superior, os sacerdotes de Asgard proclamavam: Ethereum é securities fraud esperando para acontecer. TRON é blockchain centralizado de um charlatão. Solana é blockchain de capital de risco que vai morrer na próxima vez que o mercado cair. Apenas Bitcoin é real. Apenas Bitcoin é descentralizado. Apenas Bitcoin é sagrado.
Os altcoiners, os crentes em TRON, em Solana, em Ethereum, respondiam com sua própria fúria sagrada: Bitcoin é antiquado! Vejo-o como o que é, ouro digital para os ricos que já têm ouro suficiente. Ethereum é o computador mundial. Solana processa mais transações em um segundo do que Bitcoin em um dia. O futuro é velocidade, não rigidez. Os maximalistas são os últimos dinosauros a perceber que o asteroide já chegou.
E aquele conflito, aquele implacável, infinito conflito de narrativas, era mais real que qualquer batalha com espadas e sangue. Pois as guerras verdadeiras do século XXI não se travam com armas, travam-se com enquadramentos. Com quem define os termos do debate. Com quem consegue fazer o maior número de mortais acreditar que sua visão parcial é a visão completa. São guerras de imaginação. E nessas guerras, ambos os exércitos eram simultaneamente vitoriosos e derrotados, pois cada um conquistava sua própria audiência enquanto falhava em converter a do outro.
O que os exércitos não sabiam, e que os reis sabiam desde o diálogo no Bifrost, era que a guerra era desnecessária. Que o cosmos era grande o suficiente. Que um mortal que comprava Bitcoin não impedia outro mortal de usar Solana. Que um desenvolvedor construindo em Ethereum não destruía um holder de Bitcoin. Os dois panteões não eram mutuamente exclusivos. Eram mutuamente complementares. E a energia gasta na guerra poderia ter sido gasta na construção, mas os exércitos raramente aprendem essa lição antes dos reis.
São guerras de imaginação. E nelas, ambos os exércitos vencem e perdem simultaneamente.