Canto X: A Ressaca do Deus
Queda de 80%, Jackson Palmer rompe com o cripto, e a lição da sobriedade dionisíaca
Depois do festival veio a ressaca. DOGE recuou fortemente após o pico de maio de 2021 e terminou aquele ano muito abaixo dele. A passagem para menos de US$ 0,10 aconteceria em 2022, não em dezembro de 2021. A queda atravessou estações; Dionísio aprendera que o calendário também faz parte da memória.
Em julho de 2021, Jackson Palmer publicou um longo manifesto quebrando seu silêncio sobre cripto. Sua avaliação foi devastadora: confirmou que não planejava retornar ao ecossistema, descrevendo a indústria como aproveitadora da insegurança financeira das pessoas e controlada por uma cartela de figuras ricas que usam o sofrimento alheio para se enriquecer. Declarou que nunca voltaria.
As palavras de Palmer eram legítimas e mereciam ser ouvidas. A especulação havia lesado pessoas reais. A volatilidade extrema era devastadora para quem havia investido recursos que não podia perder. O êxtase dionisíaco, quando apropriado por forças de exploração financeira, torna-se seu oposto: não a libertação que o deus promete, mas a armadilha que os charlatões constroem à sua sombra.
E ainda assim, r/dogecoin continuou. Com menos intensidade, com mais humildade, com a quietude de uma comunidade que havia sobrevivido ao pico e ao vale e escolhido permanecer. Não pelos ganhos, os ganhos haviam sido e ido. Pelos mesmos motivos que haviam criado o culto em 2013: a generosidade, o humor, o sentido de pertencer a algo que não levava a si mesmo tão a sério quanto o mundo às vezes exige.
Dionísio, na tradição helênica, não é eterno no sentido que os outros deuses são. Ele é o deus que morre e renasce, associado aos ciclos da vinha, ao inverno que congela e ao verão que faz fermentar. Sua ressurreição não é milagrosa: é sazonal, previsível, inevitável. A Dogecoin de 2021 havia completado seu primeiro grande ciclo de morte e renascimento. O culto que sobrevive a isso já não precisa de prova de valor externo.
Não planejo retornar ao cripto. É um sistema controlado por uma poderosa cartela de figuras ricas.