Canto VI: O Sono do Deus
Billy Markus vende seus DOGE, Jackson Palmer se afasta, a comunidade persiste sozinha
Todos os deuses dormem. É necessário. O êxtase contínuo não é êxtase, é insanidade. Dionísio na tradição helênica descansava entre suas procissões, recolhia-se, aguardava o próximo ciclo de revelação. Entre 2015 e 2019, a Dogecoin entrou no sono mais longo de sua história, e nesse sono revelou algo sobre sua própria natureza que nenhum outro projeto poderia demonstrar.
Billy Markus vendeu todas as suas Dogecoins por volta de 2015. Não ficou rico. O valor total que recebeu foi suficiente para comprar um Honda Civic usado e pagar alguns meses de aluguel. Em termos financeiros, o criador da moeda meme mais icônica da história saiu praticamente de mãos vazias. Ele se desconectou publicamente do projeto, focou em sua carreira como engenheiro, e observou de longe o que havia criado.
Jackson Palmer seguiu caminho semelhante mas com crescente amargura intelectual. À medida que o ecossistema cripto crescia, Palmer tornava-se cada vez mais crítico da cultura que observava. Via especulação sem fundamento. Via promessas vazias. Via ricos enriquecendo mais e crédulos perdendo economias. O humor havia saído do sistema.
E r/dogecoin continuou existindo, enquanto outros colaboradores mantinham Dogecoin Core. A saída dos fundadores do desenvolvimento, em 2014, não significou abandono de todo o código. A atividade variou, mas a comunidade e os mantenedores conservaram o fogo: a criação já não dependia apenas de quem lhe dera nome.
Sileno, o velho sátiro e tutor de Dionísio na tradição helênica, era sempre representado embriagado em cima de um burro, precisando de ajuda para se manter ereto. Mas quando capturado e forçado a falar pelo rei Midas, Sileno revelou sabedoria profunda: não como pessimismo, mas como libertação do apego ao efêmero. A comunidade Dogecoin dormia com a serenidade de quem não precisa provar que ainda existe.
Vendi todos os meus DOGE para comprar um Honda usado. Não foi meu maior movimento financeiro.