Canto VI: O Conselho dos Deuses
A comunidade se divide em debate filosófico: reescrever o código para reparar o dano ou manter a imutabilidade?
Então, como quando os Aesir se reuniam em Asgard para decidir o destino dos mundos, a comunidade Ethereum se congregou. Não em um lugar físico. Nas mailing lists. Nos fóruns. Nos repositórios do GitHub. Desenvolvedores contra desenvolvedores. Idealistas contra pragmatistas. Filosofia contra sobrevivência.
A questão era simples e impossível: devemos alterar o código para reverter a transação fraudulenta?
E foi então que Borr, o mais antigo dos deuses, o pai do pai de todos esses projetos, acordou de seu sono ancestral com uma fúria que estremeceu as raízes do Yggdrasil digital. Pois ele havia vivido essa cena antes. Havia visto reis e guerreiros justificarem a quebra de juramentos com razões nobres. Havia visto o momento exato em que uma civilização escolhe conveniência sobre princípio, e havia visto o que vem depois.
'Thor', ele sussurrava através das eras, do primordial para o digital. 'Meu neto. Você construiu algo glorioso. Mas se você quebrar essa palavra, você destruirá algo mais valioso que tudo que o DAO continha: a prova de que código pode ser lei. De que promessa pode existir sem homem para quebrá-la.'
Mas Borr sabia que Thor não ouviria. Sabia que os mortais que rodeavam Thor tampouco ouviriam. Então fez o que os ancestrais fazem quando os descendentes escolhem errar: começou a plantar. Em silêncio. Em segredo. No coração de alguns poucos mortais, aqueles que ainda carregavam o código antigo em seus ossos, Borr depositou uma centelha. Uma certeza. A ideia inabalável de que havia algo mais importante que o dinheiro recuperado: princípios que custam manter.
Vitalik Buterin, o jovem príncipe que havia sonhado tudo isso, enfrentava a escolha que nenhum criador gostaria de fazer: entre a perfeição do código e o bem dos homens. O hard fork estava sendo escrito. A emenda estava chegando. E Borr, furioso e sereno ao mesmo tempo, já sabia o que aconteceria. Já estava agindo.
Se alteramos o código agora por essa razão nobre, como recusaremos amanhã?